domingo, 24 de março de 2013

Um Homem Comum

Carmine Magdalena, Carmo,  para os mais íntimos,
tinha  história , mas poucos a conheciam. Ainda pequeno,
foi levado pela mãe, Madalena, italiana do sul da Bota ,
à uma loja de roupas finas. Precisava de um agasalho novo.
Ganhou o melhor: uma japona . Naqueles tempos não se falava jaqueta.
A japona de Carmo tinha ombreiras. Feita pra homens crescidos.
Dona Madalena  achou que  o menino merecia.
Carmo já saiu da loja envergando a japona nova,  todo vaidoso.
Na calçada  deparou com um garoto sem agasalho.
Carmine, Carmo, para os mais íntimos, tirou sua japona nova
e vestiu-a no pobre.
"Mas Carmo - reparou-lhe a mãe - por que tua japona nova?"
Perguntou por perguntar . Mama Madalena já conhecia aquele  figlio.
" - O menino tá com frio, mama!"
Não se falou mais no assunto e Carmo votou para casa
com o casaco velho.

Carmine, Carmo, para os mais íntimos, cresceu , se casou 
e teve dois filhos natimortos.A mulher , não se sabe por que, 
foi-se embora. Não se pode falar que foi um belo dia,
mas Carmo, continuou sua vida de operário. Era eletricista
na  Siderúrgica Mendes Junior. Passado o tempo de serviço, 
aposentou-se. Na falta de trabalho, e cheio de saúde ainda,
ele começou a fazer  pequenos reparos nas casas dos vizinhos.
Carmo  virou pau pra toda obra. Era  muito bem quisto no bairro.

Carmine, Carmo, para os mais íntimos, era mesmo dado a fazer graça.
A vizinha adoeceu e foi pro hospital. Carmo pagou uma  acompanhante
pra não deixar a viúva só, naquele quarto sem graça.
Mas Carmo, fazia muito mais graças: recolhia cachorros abandonados na rua.
E gastava um dinheirão cuidando deles . À irmã , Ana, costumava dizer
que animal era mais afeiçoado que gente.

Mas Carmine, Carmo, para os mais íntimos,
tinha um vício ; bebia. Afogava no álcool  a mágoa  da solidão
causada pelo abandono da mulher.
Ontem os vizinhos estranharam a casa toda aberta
e os ganidos da cachorrada solta .
Carmine, Carmo, para os mais íntimos, 
foi encontrado pendurado pelo pescoço na janela.
Enforcara-se com um rolo de fio elétrico.
Seu corpo jaz agora no Parque da Saudade.
Desconfio que Carmine,Carmo, para os mais íntimos,
esteja passando maus pedaços com a preocupação 
com os cachorros.
"-Quem vai cuidar deles, Mama ?"
- Preocupa não figlio mio. Deve ter mais Carmines 
naquela terra de Dio. Andiamo a mangiare lo maccheroni ."

Os vizinhos, no velório, disseram que Carmine ,
Carmo, para os mais íntimos, andava dizendo
que estava com muita saudade da mãe .

Dos vinte cachorros  que ele cuidava , 
só dois  foram levados pelo irmão mais velho.
Ele não tem condições financeiras  de cuidar de todos.
O destino dos outros foi o canil da prefeitura ,
onde ficarão à espera de um outro
Carmine, Carmo, para os amigos.


Um comentário:

  1. LINDO O SEU RELATO, MANA! QUE CARMINE ESTEJA EM PAZ. UM HOMEM QUE ABRAÇA E DEDICA SUA VIDA AOS CACHORROS SÓ MERECE A PAZ!

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