tinha história , mas poucos a conheciam. Ainda pequeno,
foi levado pela mãe, Madalena, italiana do sul da Bota ,
à uma loja de roupas finas. Precisava de um agasalho novo.
Ganhou o melhor: uma japona . Naqueles tempos não se falava jaqueta.
A japona de Carmo tinha ombreiras. Feita pra homens crescidos.
Dona Madalena achou que o menino merecia.
Carmo já saiu da loja envergando a japona nova, todo vaidoso.
Na calçada deparou com um garoto sem agasalho.
Carmine, Carmo, para os mais íntimos, tirou sua japona nova
e vestiu-a no pobre.
"Mas Carmo - reparou-lhe a mãe - por que tua japona nova?"
Perguntou por perguntar . Mama Madalena já conhecia aquele figlio.
" - O menino tá com frio, mama!"
Não se falou mais no assunto e Carmo votou para casa
com o casaco velho.
Carmine, Carmo, para os mais íntimos, cresceu , se casou
e teve dois filhos natimortos.A mulher , não se sabe por que,
foi-se embora. Não se pode falar que foi um belo dia,
mas Carmo, continuou sua vida de operário. Era eletricista
na Siderúrgica Mendes Junior. Passado o tempo de serviço,
aposentou-se. Na falta de trabalho, e cheio de saúde ainda,
ele começou a fazer pequenos reparos nas casas dos vizinhos.
Carmo virou pau pra toda obra. Era muito bem quisto no bairro.
Carmine, Carmo, para os mais íntimos, era mesmo dado a fazer graça.
A vizinha adoeceu e foi pro hospital. Carmo pagou uma acompanhante
pra não deixar a viúva só, naquele quarto sem graça.
Mas Carmo, fazia muito mais graças: recolhia cachorros abandonados na rua.
E gastava um dinheirão cuidando deles . À irmã , Ana, costumava dizer
que animal era mais afeiçoado que gente.
Mas Carmine, Carmo, para os mais íntimos,
tinha um vício ; bebia. Afogava no álcool a mágoa da solidão
causada pelo abandono da mulher.
Ontem os vizinhos estranharam a casa toda aberta
e os ganidos da cachorrada solta .
Carmine, Carmo, para os mais íntimos,
foi encontrado pendurado pelo pescoço na janela.
Enforcara-se com um rolo de fio elétrico.
Seu corpo jaz agora no Parque da Saudade.
Desconfio que Carmine,Carmo, para os mais íntimos,
esteja passando maus pedaços com a preocupação
com os cachorros.
"-Quem vai cuidar deles, Mama ?"
- Preocupa não figlio mio. Deve ter mais Carmines
naquela terra de Dio. Andiamo a mangiare lo maccheroni ."
Os vizinhos, no velório, disseram que Carmine ,
Carmo, para os mais íntimos, andava dizendo
que estava com muita saudade da mãe .
Dos vinte cachorros que ele cuidava ,
só dois foram levados pelo irmão mais velho.
Ele não tem condições financeiras de cuidar de todos.
O destino dos outros foi o canil da prefeitura ,
onde ficarão à espera de um outro
Carmine, Carmo, para os amigos.
LINDO O SEU RELATO, MANA! QUE CARMINE ESTEJA EM PAZ. UM HOMEM QUE ABRAÇA E DEDICA SUA VIDA AOS CACHORROS SÓ MERECE A PAZ!
ResponderExcluir