domingo, 31 de março de 2013

Provação

"- É irreversível. Pouco tempo."
O homem de branco não esconde palavras.
Mãos, lábios crispados, choros contidos.
"- Mas assim, como vai ser ?
Falta ele...tão longe!
Fronteira...só floresta e índio...
É preciso fazer alguma coisa!

Noite.Guarita de quartel.
A ordem vai por rádio,
como numa guerra antiga.
Alguém com patente. Há compreensão,
piedade, respeito.
O avião da FAB faz mais um voo.
E o que faltava, chegou.

"Olha ele ai, o Antônio!"
Sentado na cama, recebe o filho
com abraço e sorriso.
Inacreditável !
Depois , a volta ao sono profundo.

Lá fora o coaxar dos sapos
se junta ao barulho da chuva..
Não há grilos nesta noite.
Na penumbra, fala-se baixinho
e recorda-se a vida.

Suavemente, alguém umedece
os lábios ressequidos.
Lágrimas escorrem do canto
dos olhos daquele que dorme.
O sangue aflora-lhe o rosto
e ilumina-lhe o semblante  macerado.
Um suspiro profundo enche-lhe o peito.
Não há sofrimento.Antes, um suspiro
de alívio. Foi-se o peso.
Nada mais o oprime.

No dia seguinte ,
-2 de novembro de 1973 -
um cortejo de carros, caminhões
e outras rodas, acompanham
o corpo de meu pai, até o pequeno
cemitério. Chovera, mas o sol refletia
seus raios nos anjos esculpidos nas  lápides.
Uma linda tarde de primavera!

Depois,o filho que faltava
retornou ao dever.
Lá longe, na fronteira.
Cuidar de malária de criança, mulher
e velho, floresta adentro. Mal
que lhe entranharia o corpo
mais de uma vez.
Retornou um dia ,
mas de outro plano,
para vigiar  a cabeceira da irmã.
Mas esta é outra história de
provação.

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