Pode-se amar tão intensamente uma lembrança,
que às vezes têm-se a impressão
de se poder tocá-la.
A menina chuta uma pedra ao acaso,
andando na linha do trem,
saltando - vez e outra -
os grossos dormentes de madeira ,
graciosa e leve, como um passarinho,
em seu vestido amarelo de algodão florido,
os pequenos pés metidos em sapatos de lona azul .
Chuta daqui, chuta dali
e a pedra rola e rola
e voa , até virar pó.
E alguma coisa acontece no mundo:
O apito do trem.
A menina salta rápido para o lado
E a máquina passa, quase invisível
- Tão velóz ! -
Deixando para trás
Uma menina de olhar antigo,
Observando o trem se afastar,
Até sumir na curva dos trilhos
Levando seu comboio comprido
Onde, no último vagão aberto,
Um homem mostra a mão estendida.
Hoje procurei o olhar antigo da menina no espelho
Onde costumava encontrá-lo
E deparo com uma mulher
De semblante compreensivo e sereno.
Reconheço nela o rosto marcado pelos anos
A cabeça já começando a pratear
A fenda na testa separando olhos sombreados,
Mas onde brilha uma luz que não se via antes.
(Alguma coisa acontece...)
Então peço a Deus que me conceda ser,
Simplesmente, esta mulher.
E que me ajude a dizer adeus
à menina de olhar antigo
E a apagar da memória
A imagem do trem indo embora.
É a que dóí mais.
.
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