domingo, 9 de setembro de 2012

Epifania

                             Para uma menina com um cachorro.

De repente vislumbro meu pai
que está a mirar-me
através dos olhos do cão.
Olhos ternos de pai,
Olhos mansos de cão.

E nessa inimaginável fenda, o tempo se congela.
A memória se abre feito uma tela de cinemascope.
Tudo é colorido. E a lembrança me envolve
num abraço quente:
Eu sou a menina que vira de lado
e se aconchega ao corpo adormecido da irmã.
O semblante tranquilo marcado por um sorriso.
O mundo é perfeito:
-Papai saiu para caçar. Talvez traga peixe também.
-"Valente, Combate, Neguinho!"
Os latidos desencontrados dos cachorros
vão se afastando dos meus ouvidos, se afastando...
Até que tudo se aquieta e o silêncio da madrugada
toma conta da casa novamente.
Durmo agarrada à minha infância.

Oh acaso!
Oh benfazeja memória!
Meu pai me ama
e o cão lambe-me
as mãos.

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